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Morre Michel Tuma Ness

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CURITIBA/ PARANÁ – A notícia chegou cedo: morreu na madrugada desta terça-feira 29, em São Paulo, Michel Tuma Ness, o Michelão, um dos ícones do turismo brasileiro. Presidente da Fenactur (Federação Nacional do Turismo), co-criador e eterno presidente do Clube do Feijão Amigo, entidade universal e sem estatutos, titular da Status Turismo, de São Paulo. Um agregador. Tinha 80 anos – faria 81 em outubro – e não resistiu aos desdobramentos de uma cirurgia cardíaca. Era viúvo de dona Fátima e pai de Alexandre, Marcello e Fábio.

Michelão, como era carinhosamente conhecido, começou a vida como engraxate aos nove anos de idade, depois atuou na área de vendas, técnica que exercia com extrema competência, até criar sua empresa de turismo. Em 2002, foi nomeado presidente da Transbrasil, mas ficou apenas uma semana no cargo; a situação da companhia aérea já era muito complicada.

Ele era presença constante nos grandes eventos do turismo, não só como agente de viagens e presidente da Fenactur, mas também como animador, promovendo a distribuição de fatias, que ele mesmo cortava, de uma mortadela gigante, tão grande como ele – tinha dois metros de altura, talento e simpatia.

O Feijão Amigo


Foto arquivo

Feijão, arroz, salada, bife e ovo. A receita é simples e é a base, quase um estatuto, de uma instituição que, fundada em fevereiro de 1980, em São Paulo, se espalha pelo Brasil inteiro e já ultrapassou fronteiras nessas quatro décadas.

Feijão, arroz, salada, bife e ovo. Mas o fundamental é o tempero: generosas pitadas de amizade, companheirismo e fraternidade, como sempre destacou Michelão.

O Clube do Feijão Amigo foi criado por Michelão e por Adel Auada, empresários da área de turismo. Tudo começou com pequenos encontros em torno do feijão no escritório da Status Turismo, de Tuma Ness. Hoje, o Feijão Amigo reúne dezenas de milhares de executivos da hotelaria, das empresas de transportes (terrestres, aéreos, marítimos), de agências e operadoras de viagens, da imprensa, de entidades das áreas de turismo e eventos, afora os convidados especiais para cada edição

Os encontros do Feijão Amigo – em almoço ou jantar, interrompidos pelo advento da pandemia da Covid-19 – não têm periodicidade nem calendário. Acontecem muitas vezes em paralelo a eventos do turismo. No Paraná, foi realizado várias vezes: em Curitiba e em Foz do Iguaçu.

O Feijão Amigo, como fazia questão de destacar seu fundador, é um clube sui generis: não tem estatutos, os associados não pagam mensalidades e não tem sede própria (“está no coração de cada um”). Quando os patrocínios permitem, vai ao exterior, e já esteve em países como Argentina, Chile, Uruguai, França, Portugal, Espanha, Estados Unidos, Líbano, Rússia e África do Sul.

E foi realizado até em navio, lancha e no famoso Trem de Prata, que ligava São Paulo e o Rio de Janeiro.

O Feijão Amigo, como fazia questão de destacar seu fundador, é um clube sui generis: não tem estatutos, os associados não pagam mensalidades e não tem sede própria (“está no coração de cada um”). Quando os patrocínios permitem, vai ao exterior, e já esteve em países como Argentina, Chile, Uruguai, França, Portugal, Espanha, Estados Unidos, Líbano, Rússia e África do Sul.

E foi realizado até em navio, lancha e no famoso Trem de Prata, que ligava São Paulo e o Rio de Janeiro.

Como nasceu o Clube

No livro “Clube do Feijão Amigo – Histórias e Estorinhas”, que Adel Auada publicou em 2001 e no qual incluiu artigos de colaboradores, um deles, Roberto Pinto, detalha o nascimento da entidade, falando de Rita dos Santos, “mulher serena, pernambucana de Recife, dona de um talento inigualável com as panelas e temperos”, primeira cozinheira do clube, que nasceu por acaso.

“Na quinta-feira chuvosa de 14 de fevereiro de 1980, os empresários Adel Auada e Wilson Calabresi, acompanhados do jornalista Joel de Andrade Lóes, foram visitar o Michel Tuma Nessa, o Michelão como é conhecido, na sede da Status Turismo, no coração de São Paulo.

Como Michelão não estava, eles aguardaram na recepção da agência. Chegava a hora do almoço e os três, envolvidos numa calorosa discussão sobre os rumos do turismo brasileiro, ficaram embriagados com o delicioso cheiro de comida que emanava da cozinha da agência. Para alegria dos visitantes famintos, surgiu o esperado convite:

– Vão ficar pro almoço? perguntou dona Rita.

Os três se entreolharam e responderam simultaneamente com um sonoro SIM!”

A refeição era tão boa que o grupo marcou nova reunião para a semana seguinte, por coincidência, perto da hora do almoço. Desta vez, o publicitário Claudio Aidar também veio e sugeriu a realização de almoços mensais para alguns convidados.

Michelão, que tinha o costume de reunir informalmente sua equipe de vendas às sextas-feiras, gostou da proposta e decidiu organizar almoços semanais para troca de ideias com o pessoal do turismo, mas com uma condição: era proibido falar de trabalho corriqueiro, tarefas burocráticas, preocupações menores! Nascia o famoso Clube do Feijão Amigo. (…)

O clube cresceu mantendo a sua proposta original: sem estatutos e cobrança de mensalidades, só importando o espírito de fraternidade que une seus membros”.

O parceiro Daniel

Até poucos anos atrás, os detalhes e o cerimonial de cada encontro dos feijoeiros ficavam a cargo do sempre bem disposto e cordial Vitor Daniel, companheiro de trabalho na Fenactur. Vitor morreu em 2017, depois de longa batalha contra o câncer.

Michel Tuma Ness, na época, pensou até em se afastar do Clube, mas foi dissuadido pelo filho Alexandre e por muitos amigos. Por isso, continuava na luta, seguindo a trilha do dito cunhado por ele de que “de um pé de feijão nasce uma grande amizade”.

Em cada uma das mesas dos eventos do Feijão, Michelão sempre deixa uma mensagem: “Tudo passa, só a amizade permanece. E nenhum caminho é longo demais quando um amigo nos acompanha, e é no Feijão Amigo onde encontro os companheiros da minha caminhada”.

Por Julio Zaruch